*'Sócrates, o ditador'
Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração.
Com Guterres,
o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal,
mas, contra ele, percebeu
que a indecisão pode ser fatal,
ao ponto de, com zelo, se exceder.
Prefere decidir mal, mas rapidamente,
do que adiar para estudar.
Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido.
Com os dois e com a sua própria intuição autoritária,
compreendeu que se pode governar sem políticos.
Onde estão os políticos socialistas ?
Aqueles que conhecemos,
cujas ideias pesaram alguma coisa
e que são
responsáveis pelo seu passado?
Uns saneados, outros afastados.
Uns reformaram-se da política,
outros foram encostados.
Uns foram promovidos ao céu,
outros mudaram de profissão.
Uns foram viajar,
outros ganhar dinheiro.
Uns desapareceram sem deixar vestígios,
outros estão empregados nas empresas
que dependem do Governo.
Manuel Alegre resiste, mas já não conta.
Medeiros Ferreira ensina e escreve.
Jaime Gama preside sem poderes.
João Cravinho emigrou.
Jorge Coelho está a milhas de distância
e vai dizendo, sem convicção,
que o socialismo ainda existe.
António Vitorino, eterno desejado,
exerce a sua profissão.
Almeida Santos justifica tudo.
Freitas do Amaral,
"ofereceu-se, vendeu-se" e reformou-se !
Alberto Martins apagou-se.
Mário Soares ocupa-se da globalização.
Carlos César
limitou-se definitivamente aos Açores.
João Soares espera.
Helena Roseta foi à sua vida independente.
Os grandes autarcas do partido
estão reduzidos à insignificância.
O Grupo Parlamentar
parece um jardim-escola sedado.
Os sindicalistas quase não existem.
O actual pensamento dos socialistas
resume-se a uma lengalenga pragmática,
justificativa e repetitiva
sobre a inevitabilidade do governo
e da lutacontra o défice.
O ideário contemporâneo
dos socialistas portugueses
é mais silencioso do que a meditação budista.
Ainda por cima,
Sócrates percebeu depressa
que nunca o sentimento público esteve,
como hoje, tão adverso
e tão farto da política e dos políticos.
Sem
hesitar,
apanhou a onda.
Desengane-se quem pensa
que as gafes dos ministros incomodam Sócrates.
Não mais do que picadas de mosquito.
As gafes entretêm a opinião,
mobilizam
a imprensa,
distraem a oposição e ocupam o Parlamento.
Mas nada de essencial está em causa.
Os disparates de Manuel Pinho
fazem rir toda a gente.
As tontarias e a prestidigitação estatística
de Mário Lino são pura diversão.
Não se pense que a irrelevância
da maior parte dos ministros, que nada têm a
dizer para além dos seus assuntos técnicos,
perturba o primeiro-ministro.
É assim que ele os quer,
como se fossem directores-gerais.
Só o problema da Universidade Independente
e dos seus diplomas o incomodou
realmente.
Mas tratava-se, politicamente,
de uma questão menor.
Percebeu que as suas fragilidades
podiam ser expostas
e que nem tudo estava
sob controlo.
Mas nada de semelhante se repetirá.
O estilo de Sócrates consolida-se.
Autoritário, Crispado, Despótico,
Irritado, Enervado,
Detestando ser contrariado.
Não admite perguntas
que não estavam previstas ou antes combinadas.
Pretende saber, sobre as pessoas,
o que há para saber.
Tem os seus sermões preparados
todos os dias.
Só ele faz política,
ajudado por uma máquina poderosa
de recolha de informações,
de manipulação da imprensa,
de propaganda e de encenação.
O verdadeiro Sócrates
está presente nos novos bilhetes de identidade,
nas tentativas de Augusto Santos Silva
de tutelar a imprensa livre,
na teimosia
descabelada
de Mário Lino,
na concentração das polícias sob seu mando
e no
processo
que o Ministério da Educação abriu
contra um funcionário
que se
exprimiu em privado.
O estilo de Sócrates está vivo,
por inteiro,
no ambiente que se vive,
feito
já de medo e apreensão.
A austeridade administrativa e orçamental
ameaça a tranquilidade de cidadãos
que sentem que a sua liberdade de expressão
pode ser onerosa.
A imprensa sabe o que tem de pagar
para aceder à informação.
As empresas conhecem as iras do Governo
e fazem as contas ao que têm de fazer
para ter acesso aos fundos e às autorizações.
Sem partido que o incomode,
sem ministros politicamente competentes
e sem
oposição à altura,
Sócrates trata de si.
Rodeado de adjuntos dispostos a tudo
e com a benevolência de alguns
interesses económicos,
Sócrates governa.
Com uma maioria dócil,
uma oposição desorientada
e um rol de secretários de Estado zelosos,
ocupa eficientemente,
como nunca nas últimas décadas,
a
Administração Pública
e os cargos dirigentes do Estado.
Nomeia e saneia a bel-prazer.
*Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos.
É possível.
Mas não é boa notícia.
É sinal da impotência da oposição.
De incompetência
da sociedade.
De fraqueza das organizações.
E da falta de carinho dos
portugueses pela liberdade.*

